Meninas cristãs estão entre mais de 200 vítimas de conversão e casamento forçados no Paquistão

Meninas cristãs estão entre mais de 200 vítimas de minorias religiosas que sofreram casos envolvendo sequestro, conversão religiosa ...

Meninas cristãs estão entre mais de 200 vítimas de conversão e casamento forçados no Paquistão
Meninas cristãs estão entre mais de 200 vítimas de conversão e casamento forçados no Paquistão (Foto: Reprodução)

Meninas cristãs estão entre mais de 200 vítimas de minorias religiosas que sofreram casos envolvendo sequestro, conversão religiosa forçada, casamento infantil e violência sexual no Paquistão nos últimos anos.

O relatório “Stolen Girls” (Meninas Roubadas) documentou 210 casos entre 2019 e 2025, revelando a vulnerabilidade enfrentada por meninas e mulheres pertencentes a comunidades religiosas minoritárias no país.

Mais de 83% das vítimas eram menores de 18 anos. Entre os casos documentados, 134 envolviam adolescentes entre 14 e 17 anos e 41 eram meninas com menos de 14 anos. Outras 35 vítimas eram adultas.

A idade média das vítimas era de apenas 12,8 anos, enquanto a dos homens envolvidos nos casos era de 35,8 anos.

A província de Punjab, onde vive uma parcela significativa da comunidade cristã paquistanesa, concentrou a maioria dos registros: 186 dos 210 casos, o equivalente a 88,6%.

O levantamento, apresentado recentemente no Parlamento Europeu, também apontou um padrão de irregularidades, incluindo possível falsificação de documentos, manipulação de processos legais e falhas institucionais que dificultam a proteção das vítimas e a responsabilização dos envolvidos.

Cristãs entre as vítimas

Outro levantamento ajuda a dimensionar especificamente a violência enfrentada pelas cristãs. Dados compilados pelo Centre for Social Justice apontam 421 casos de sequestro e conversão forçada de meninas e mulheres de minorias religiosas entre 2021 e 2024.

Entre essas vítimas, 137 eram cristãs, 282 hindus e duas sikhs.

Já em 2025, organizações parceiras da Christian Solidarity Worldwide (CSW) documentaram outros 94 casos envolvendo sequestro, conversão e casamento forçados de mulheres e meninas pertencentes a minorias religiosas.

Defensores dos direitos humanos alertam que os números reais podem ser maiores, pois muitos casos não são denunciados devido a ameaças, intimidação e medo de represálias contra as vítimas e suas famílias.

Menina cristã sequestrada aos 13 anos

Um dos casos citados é o de Maria Shahbaz, uma cristã que, segundo sua família, foi sequestrada, convertida à força ao islamismo e obrigada a se casar quando tinha apenas 13 anos.

Em fevereiro deste ano, o Tribunal Constitucional Federal do Paquistão manteve sua conversão e casamento e determinou que ela permanecesse sob a custódia do homem muçulmano apontado pela família como responsável pelo sequestro.

O advogado Muhammad Saqib Jillani, que representa a família, apresentou um pedido de revisão da decisão. Em julho, novos argumentos foram admitidos pelo tribunal, com uma nova audiência prevista para setembro.

O caso de Maria também foi abordado durante um treinamento realizado recentemente para preparar advogados cristãos para atuar na defesa de vítimas de casamento infantil, sequestro e conversão religiosa forçada.

Advogados cristãos são treinados

Advogados cristãos de diferentes regiões de Punjab participaram, nos dias 21 e 22 de agosto, em Multan, de um treinamento especializado para lidar com esses casos.

O encontro foi organizado pela Liberty Law Partners, com apoio da organização jurídica ADF International, e teve como foco a aplicação da nova Lei de Restrição ao Casamento Infantil de Punjab de 2026.

Tehmina Arora, diretora de advocacia da ADF International para a Ásia disse que o workshop foi destinado não apenas a fortalecer a capacidade de advogados individuais, mas também a construir redes profissionais entre advogados cristãos que trabalham no sul do Punjab.

“A iniciativa é oportuna, já que advogados e defensores dos direitos continuam a enfrentar dificuldades nos casos em que as alegações de conversão forçada e casamento infantil se cruzam com questões de idade, consentimento, identidade religiosa e a confiabilidade das declarações feitas por menores”, disse Arora.

“Com a nova legislação do Punjab agora estabelecendo 18 anos como a idade legal mínima do casamento para ambos os sexos, a aplicação efetiva dependerá não apenas da existência da lei, mas também da capacidade da polícia, promotores, tribunais e advogados de aplicar suas disposições de forma consistente.”

A legislação estabeleceu 18 anos como idade mínima para o casamento tanto de meninas quanto de meninos. A medida é vista como um avanço na proteção de menores, mas especialistas alertam que sua eficácia dependerá da aplicação pelas autoridades e pelos tribunais.

Proteger vítimas

O advogado Lazar Allah Rakha, um dos organizadores, explicou que muitos casos envolvendo meninas de minorias apresentam diferentes crimes e violações simultaneamente, incluindo sequestro, coerção religiosa, casamento infantil e violência sexual.

“Tais casos podem envolver alegações múltiplas e sobrepostas, incluindo sequestro, conversão religiosa coercitiva, casamento infantil e violência sexual, exigindo que os advogados busquem recursos criminais, constitucionais e outros recursos legais simultaneamente”, disse Rakha.

Por isso, os advogados foram orientados sobre como utilizar diferentes instrumentos legais para proteger as vítimas e contestar judicialmente casamentos e supostas conversões religiosas envolvendo menores.

Jillani também destacou durante o treinamento que a Constituição paquistanesa garante liberdade religiosa e orientou os profissionais a questionarem a validade de conversões envolvendo crianças.

“O julgamento trata a proteção das minorias religiosas como uma obrigação constitucional do Estado”, disse Jillani. “A Suprema Corte enfatizou que o artigo 20 da Constituição protege a liberdade de religião e se aplica a cada cidadão, denominação religiosa e seita.”

Perseguição no Paquistão

Cristãos representam uma pequena minoria da população do Paquistão e enfrentam diferentes formas de discriminação e perseguição religiosa.

Mulheres e meninas cristãs estão particularmente vulneráveis a sequestros, abusos e conversões forçadas, segundo organizações que acompanham a liberdade religiosa no país.

O Paquistão ocupa o 8º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026, da Portas Abertas, que classifica os 50 países onde os cristãos enfrentam os níveis mais severos de perseguição.

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